Trilha sonora do texto Mil perdões – Chico Buarque
Sentada no chão, nua, cheirando ao sexo feito para o prazer dele. Olhava para aquele homem deitado numa rede, em um quarto que não parecia um quarto. Roupas espalhadas pelo chão, papéis, livros. Uma parede que não ia até o teto. Olhava para aquele homem que não era bonito, que não era educado, que era tudo que ela nunca quis. Aquele homem que, apesar disso, era tudo que ela queria naquele momento, mas não entendia o motivo para querê-lo.
Lembrou-se do dia que contou que mentiu para ele. “Eu fui mesmo a loja da sua amiga”, não era amiga dele, era uma das suas namoradas. Ele deu uma tapa em sua boca. Sangrou. Mas ela não fez nada, só pediu desculpas.
Também se lembrou do dia que ficou esperando por ele o dia todo, ligou, ligou, ligou e nada. Só a noite descobriu, quando ele chegou bêbado em sua casa, que tinha passado o dia em churrasco. Mas ela não fez nada, só ajeitou alguma coisa para ele comer.
Fechou os olhos, ainda sentada, pensou em todas as vezes que chorou por gostar tanto de alguém e tão pouco dela. Escutou a irmã dizendo “me falaram que seu namorado tem uma namorada em cada bairro daqui”, e ela não falou nada, sabia que era verdade.
– Está pensando em que, princesa?
– Em nada…
– Fique ai sentadinha que vou dormir aqui.
Como sempre obedeceu. Ficou lá sentada, nua, sem vida, sem brilho.
